O Brasil está na moda. Do título de País Criativo do Ano (Creative Country of The Year) em 2025, concedido pelo Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions (Cannes Lions International Festival of Creativity), à escolha de Destino do ano para 2026 pela revista Travel + Leisure, nossa criatividade, inovação, cultura e estética vêm sendo celebradas mundialmente.
No cinema, a retomada de investimento público e estratégias de coprodução fizeram as boas histórias nacionais serem reconhecidas nas principais premiações mundiais. Já a moda brasileira viu as marcas e cores locais se transformarem em tendência na Europa, com a estética Brazil Core.
Com tanto reconhecimento ao seu talento, o desafio que se apresenta para o Brasil agora é o de transformar a “moda” em um motor para sua economia. E o caminho para isso passa, sem dúvida, pela economia criativa.
A criatividade já é reconhecida pela UNESCO como estratégia de fomento à economia em sua Rede de Cidades Criativas, uma plataforma internacional que conecta centros urbanos globais para promover o desenvolvimento sustentável e o cumprimento da Agenda 2030 por meio da economia criativa.
No cenário brasileiro, embora 15 cidades já tenham essa chancela, o número é considerado modesto frente à vasta diversidade cultural do país, sugerindo um potencial ainda subexplorado para a transformação dessa riqueza identitária em um plano de crescimento econômico e social.
O que são cidades criativas?
Mas afinal de contas, o que são cidades criativas? O conceito de Cidade Criativa, introduzido por Charles Landry na década de 1980, define centros urbanos que priorizam o capital humano e o pensamento coletivo como motores de solução e de desenvolvimento econômico. Nessas cidades, um ecossistema de políticas públicas e incentivos estimula a retenção de talentos e a inovação, promovendo um crescimento sustentável que equilibra harmoniosamente a preservação da memória histórica com a modernidade.
Ao revitalizar espaços e fortalecer clusters criativos, essas cidades transformam a imaginação e a cultura em ativos estratégicos, gerando um ambiente empreendedor onde a identidade local e o alto desempenho econômico caminham juntos.
A Lucid, reconhecida como pioneira em colaboração visual e aceleração do trabalho, encomendou uma pesquisa com o objetivo de mapear e determinar as 15 cidades mais criativas do Brasil. O estudo, que se baseia em dados do CLP - Centro de Liderança Pública, da UNESCO, entre outros, busca identificar os polos urbanos que mais se destacam nas categorias: Cultura e Criatividade, Economia, Social e Digital e Educação e Talentos, reforça o compromisso da empresa em entender como o ambiente geográfico e cultural influencia a produtividade e o potencial criativo das equipes no cenário nacional.

Rede de cidades criativas da UNESCO
Desde 2024, a Política Nacional de Economia Criativa, o Brasil Criativo, fomenta segmentos como audiovisual, design, moda e artesanato. A iniciativa do Ministério da Cultura busca integrar a inovação à valorização da diversidade cultural brasileira, transformando o potencial criativo nacional em um motor de geração de renda e fortalecimento da identidade nacional no cenário global.
É o mesmo caminho proposto pela Rede de Cidades Criativas da UNESCO, que estimula políticas públicas, estratégias, planos e iniciativas voltadas para a cultura e a criatividade em nível municipal, com o objetivo de promover a cultura em oito áreas: arquitetura, gastronomia, design, artesanato e artes populares, música, cinema, artes midiáticas e literatura.
As cidades participantes da Rede se comprometem a compartilhar suas melhores práticas e desenvolver parcerias envolvendo a sociedade civil, o poder público e privado para fortalecer essas atividades, expandir as oportunidades para os profissionais do setor, melhorar o acesso e a participação na vida cultural e integrar totalmente a cultura e a criatividade nos planos de desenvolvimento sustentável.
Há muitas oportunidades para que mais cidades no Brasil se juntem à Rede de Cidades Criativas da Unesco, como mostram os exemplos dos 15 municípios já reconhecidos pela entidade:
Belém (PA)
Com grande diversidade de produtos alimentícios locais, Belém se destaca pela gastronomia, setor que emprega 43 mil pessoas. A cidade tem programas focados na tecnologia e inovação alimentar, bem como diversos laboratórios de pesquisa dedicados a sistemas agroalimentares sustentáveis.
Belo Horizonte (MG)
Belo Horizonte possui um amplo calendário de eventos dedicados aos trabalhadores do setor criativo. Reconhecida internacionalmente como um destino gastronômico, a cidade possui uma gastronomia talentosa, apoiada por iniciativas e políticas locais e privadas que visam preservar a culinária tradicional, buscando, ao mesmo tempo, a evolução e a inovação dentro do setor.
Brasília (DF)
Classificada como a cidade mais criativa do país, Brasília abriga dezenas de laboratórios e incubadoras de startups com o objetivo de desenvolver a economia criativa nas áreas de design, moda, artesanato e grafite e também sedia vários eventos importantes do setor. Impulsionados pelo potencial do design – seja design de serviços, design thinking ou design de destinos –, esses setores colaboram em soluções para promover o desenvolvimento social e criativo.
Campina Grande (PB)
Reconhecida na categoria Artes Midiáticas, Campina Grande foi pioneira na criação de um parque tecnológico e de um curso na área, até hoje o único exemplo no país. Com um forte polo de criatividade e inovação, a cidade tem potencial reconhecido para o desenvolvimento cultural e criativo. Sede do maior São João do mundo, Campo Grande já comprovou sua capacidade de organizar eventos de grande escala, que conseguem promover a música, a dança, o teatro, o artesanato, a gastronomia e as artes multimídia.
Curitiba (PR)
Reconhecendo o design como agente de transformação urbana, Curitiba realizou investimentos estratégicos nas indústrias criativas e construiu um dos cenários de design mais dinâmicos e modernos do país. A cidade tornou-se uma referência nacional e internacional em inovação e cultura urbana, buscando melhorar a qualidade de vida de seus cidadãos por meio de diversas iniciativas de economia criativa.
Florianópolis (SC)
Formular e implementar políticas públicas para o desenvolvimento da economia criativa local, com foco na gastronomia, é o foco atual de Florianópolis. A criação do Observatório da Gastronomia e do Laboratório de Inovação Cultural visam ampliar a circulação de informações e desenvolver projetos de cooperação e intercâmbio técnico no setor, atraindo investimentos e recursos humanos qualificados.
Fortaleza (CE)
Com 914 empresas atuando no setor criativo, Fortaleza abriga 23% dos estabelecimentos de design do nordeste brasileiro e sedia diversos eventos do setor, como a Ceará Design Week e a Mais Design Ceará. As políticas públicas desempenham um papel fundamental na preservação do setor e na formulação de políticas culturais relacionadas ao design.
João Pessoa (PB)
João Pessoa é o principal centro de comércio e produção artesanal da Paraíba, incluindo cerâmica, bordados e crochê, e abriga a principal feira regional do setor. O artesanato é praticado por 5.000 famílias, que vivem principalmente nas áreas rurais ao redor da cidade. Como Cidade Criativa do Artesanato e da Arte Popular, o município promove a transferência de conhecimento e processos de capacitação para as novas gerações de artesãos, com o objetivo de preservar e promover a identidade cultural local.
Paraty (RJ)
Uma gastronomia que inclui a agricultura. Essa é a visão de Paraty,que busca desenvolver processos ambientalmente sustentáveis baseados na biodiversidade e no fomento à cooperação entre chefs e agricultores, incentivando a agroecologia. Com 78% do seu território protegido ambientalmente, Paraty adotou diversas regulamentações para cuidar do meio ambiente e está criando certificações de Gastronomia Sustentável e Passaporte Verde, com o propósito de desenvolver um turismo mais sustentável.
Penedo (AL)
Com arquitetura cinematográfica e centro histórico declarado patrimônio nacional pelo IPHAN, Penedo atrai muitos turistas para seus festivais de música, literatura e cinema, com destaque para o último. A sétima arte marcou momentos importantes na história cultural da cidade, que tem Escola de Cinema, Laboratório de Inovação e compromisso com a cooperação nacional e internacional, além de um acordo de colaboração com Santos, a única outra Cidade do Cinema na América Latina até o momento.
Recife (PE)
A música é uma das identidades culturais fortes de Recife, com expressões únicas como o frevo, característico de seu carnaval de rua, o maracatu, o Manguebeat, movimento reconhecido internacionalmente, ou o rock. A cidade é uma das mais antigas do país e tem uma longa história de inovação musical, movimentando uma ampla rede de atores e serviços culturais em torno do setor e criando um ambiente favorável para negócios no ramo.
Rio de Janeiro (RJ)
A literatura é o potencial criativo escolhido para o desenvolvimento sociocultural do Rio de Janeiro. Programas de incentivo à leitura, projetos de pacificação com foco na literatura e o reconhecimento de artistas locais são parte das ações que buscam combater desigualdades e melhorar a qualidade de vida na cidade. Com incentivo à criação de bibliotecas e a formação de mediadores culturais, o Rio de Janeiro pretende aproveitar o potencial livreiro da cidade, que responde por 14% das vendas nacionais de livros e abriga 146 livrarias.
Salvador (BA)
Salvador vive ao ritmo da música. A cidade que viu nascer o axé e o tropicalismo reúne 2 milhões de pessoas todo ano ao longo de uma semana de carnaval de rua, reconhecido pelo Guinness World Records como o maior carnaval de rua com apresentações musicais realizadas por trios elétricos. O setor musical está no centro dos planos de desenvolvimento econômico da cidade, com a promoção da indústria da música local em escala internacional e programas de capacitação que visam tornar a criatividade a base de um desenvolvimento urbano inclusivo e sustentável.
Santos (SP)
O rico legado cinematográfico de Santos tem sua origem no início do século XX, com a criação do primeiro cineclube estabelecido no Brasil. A partir daí, a cidade tem se dedicado a manter o cinema como um motor da economia local. Em um período de 5 anos, 300 produções foram filmadas na cidade, que tem 21 produtoras e coletivos cinematográficos que estão expandindo suas atividades internacionalmente. Ao mesmo tempo, programas da prefeitura promovem acesso e participação para inspirar jovens a seguirem carreira no setor.
São Paulo (SP)
O cinema é fundamental para a identidade cultural e a economia criativa de São Paulo, gerando mais de 52.000 empregos na cidade, que concentra aproximadamente 40% das produtoras cinematográficas nacionais, quase 6.000 empresas audiovisuais, 32.000 m² de estúdios e 447 salas de cinema. Uma potência que viu as primeiras produções cinematográficas na década de 20 e cujas políticas públicas hoje incentivam o fortalecimento da produção independente, a cooperação internacional e a descentralização do acesso.
Mesmo sem estar na Rede da UNESCO, diversas cidades no país têm iniciativas que promovem o desenvolvimento econômico local por meio da economia criativa. Um bom exemplo é a cidade de Eusébio, no Ceará, primeiro lugar do ranking nacional na geração de empregos no setor.
A liderança de Eusébio se deve à adoção consistente de políticas públicas voltadas para a economia criativa, que é hoje o principal pilar do desenvolvimento local.
O que faz uma cidade ser criativa?
Charles Landry diz que “muitas cidades têm projetos inovadores, mas isso não significa que elas são criativas”. Para o criador do conceito, não há uma fórmula, mas sim princípios que podem ajudar na busca de soluções. E o principal deles é, sem dúvida, a criatividade, essencial para lidar com problemas complexos como as demandas urbanas.
Landry destaca que a criatividade precisa ser um exercício coletivo, até pela característica de diversidade das cidades, constituídas de universos heterogêneos e relações complexas entre eles.
As cidades criativas estruturam um ambiente que valoriza essa característica, proporcionando um espaço onde as diferentes identidades se cruzam e prosperam. Elas são centros dinâmicos, onde a criatividade e a cultura contribuem para impulsionar o desenvolvimento urbano.
A economia criativa é um dos pilares desse desenvolvimento, com iniciativas que buscam atender à demanda por soluções inovadoras em diversas áreas. Mas com o aumento dos investimentos, cresce também o risco da perda de identidade local.
Por isso, é essencial que o poder público, o setor privado e a sociedade civil se unam para fortalecer o planejamento de soluções a partir da capacidade criativa das pessoas, ao mesmo tempo em que estimulam a participação comunitária e garantem um equilíbrio entre desenvolvimento e preservação cultural.
Como desenvolver a criatividade?
Por muito tempo se acreditou que a criatividade era um dom, um talento natural, mas hoje se sabe que ela é uma competência que pode ser desenvolvida por meio de diversas técnicas.
Para fomentar a criatividade, um primeiro passo essencial é a já mencionada convivência com a diversidade. A exposição a diferentes experiências e conhecimentos aumenta o repertório de informações e gera novas combinações de ideias.
Como o pensamento criativo é justamente a capacidade de enxergar coisas de um ângulo diferente e encontrar soluções originais, criar novas conexões mentais e fugir de estereótipos é parte importante do processo.
Além de desafiar ideias pré-concebidas, uma etapa importante do processo criativo é sair da zona de conforto, abrindo a mente para a chegada de novas ideias.
Existem várias formas de fazer isso, e abaixo apresentamos algumas:
Exercitar a mente
A prática é importante para estimular a criatividade. Realizar tarefas rotineiras de uma forma diferente da usual, experimentar novos caminhos, fazer exercícios mentais como jogos de lógica, começar um novo hobby, são táticas para manter a mente sempre ativa - e criativa!
Cultivar a curiosidade
Procure aprender algo novo todos os dias. Abra a mente para novas experiências, leia, estude, explore temas não comuns ao seu dia a dia ou área de especialização. Mesmo um passeio ao ar livre pode trazer novas ideias e perspectivas. Tente exercitar um novo olhar sobre a cidade, por exemplo, observando muros, pinturas, construções ou qualquer outra coisa que encante sua mente.
Valorizar o ócio
Recarregar as energias é importante não só para o corpo, mas também para a mente. O cérebro precisa de descanso. Procure ter sempre tempo livre entre tarefas e maneiras de relaxar e desconectar a mente. A divagação mental também faz parte do processo criativo e permite o surgimento de novas ideias, mesmo que a intenção da pausa não seja essa.
Praticar os 5 porquês
Desenvolvido pela Toyota para controle de qualidade, o método dos 5 porquês consiste em questionar repetidamente por que um determinado problema ocorreu. A cada resposta, formula-se um novo “por quê”, geralmente até 5 vezes, até a descoberta da origem do problema.
A técnica estimula o pensamento crítico e busca evitar soluções superficiais, permitindo não somente aprofundar a compreensão do problema, como também prevenir que ele aconteça novamente.
Fazer benchmarking
O benchmarking, ou pesquisa de boas práticas, amplia referências, identifica tendências e busca inspiração em outros pensamentos e soluções criativas. É muito usado por empresas na análise de concorrentes, mas também pode ser feito com pessoas criativas/criadores de conteúdo, departamentos internos e empresas de ramos diferentes, buscando uma colaboração estratégica.
Realizar sessões de brainstorming
Já para incentivar a colaboração entre as pessoas, a técnica mais usada é o brainstorming, que promove a geração de ideias “sem filtro” para buscar novas formas de resolver problemas.
É importante não se prender à viabilidade das ideias em um primeiro momento. Todas precisam ser anotadas, e é essencial que as pessoas também colaborem com as ideias dos outros.
Um facilitador que garanta um ambiente colaborativo e incentive a participação de todos e mantenha o foco no objetivo do brainstorming é essencial nesse processo.
Em resumo, a convivência com pensamentos diferentes, a oportunidade de encontros e as interações pessoais são fundamentais para o nascimento da criatividade e da inovação, assim como são a base para a construção de cidades criativas.
As cidades criativas têm potencial para redefinir nosso relacionamento com o ambiente urbano e transformar a forma como vivemos, revelando caminhos para um futuro mais sustentável e inclusivo.
Como a vocação criativa da sua cidade poderia se beneficiar desse movimento? Já existem projetos que, bem desenvolvidos, poderiam permitir que ela fosse reconhecida como uma cidade criativa pela UNESCO?
